Entrevista com o deputado Jean Wyllys

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Entrevista com o deputado Jean Wyllys

Por Fania Rodrigues

Baiano de nascimento, Jean Wyllys é deputado federal pelo PSol do Rio de Janeiro. Ele ficou conhecido ao participar e vencer o Big Brother Brasil 5, e ganhou respeito depois que foi eleito em 2010. Gay assumido, Jean Wyllys foi salvo da pobreza pela educação e sua inteligência acima da média. Aos catorze anos foi para um colégio interno para crianças com altas habilidades de assimilar conhecimento, venceu a pobreza do agreste baiano, se tornou jornalista, mestre e doutor pela Universidade Federal da Bahia. Atualmente deputado no Congresso Nacional, dedica-se a defender os Direitos Humanos das minorias, entre elas a causa LGBT. Ao longo das eleições desse ano, Wyllys consolidou sua postura política ao puxar, com outros parlamentares, uma frente no PSol defendendo o voto em Dilma para espantar a sombra do tucanato – o partido havia liberado seus militantes, exceto para votar em Aécio Neves.

Entrevista publicada na edição 213 da revista Caros Amigos


Caros Amigos - Como foi sua infância e juventude na cidade de Alagoinhas, no interior da Bahia?

Jean Wyllys – Nasci e me criei em Alagoinhas, minha família é toda de lá.Saí de Alagoinhas com catorze anos para estudar em um colégio interno técnico da Fundação José Carvalho, que ficava em Pojuca, outra cidade do interior da Bahia. E sempre voltava para Alagoinhas nas férias, de seis em seis meses. Quando terminei o colégio técnico é que passei a morar em Salvador, isso foi com dezoito anos.

São quantos irmãos?

Somos seis irmãos. Minha sétima irmã morreu ainda criança. E meu pai faleceu em 2001.

Como foi essa etapa da sua vida?

Eu morava na periferia da cidade, em um lu gar chamado Baixa da Candeia, que até hoje existe e continua sendo periferia, embora com um pouco mais de recurso. Porque, de maneira geral, a vida do brasileiro progrediu. A vida das pessoas que habitam o Brasil profundo melhorou muito. Mas quando eu vivia na Baixa da Candeia ela tinha características muito rurais, a gente também não tinha água encanada em casa, pegava de um chafariz público.Eu tinha uns doze anos quando a gente foi ter água encanada pela primeira vez.

Qual era a renda da família?

Minha mãe era lavadeira. Ela lavava no rio, que ficava a uns 2 quilômetros. Era uma região muito rural e muito pobre, miserável. A gente passava por dificuldades, primeiro pela habitação, porque vivíamos em casas cada vez mais precárias. Meu pai tinha problemas com alcoolismo, por isso não parava em emprego. Isso prejudicava bastante a vida da gente, por isso minha mãe trabalhava e todos nós saímos para trabalhar cedo. Minha irmã primeiro, como doméstica e depois em uma loja. Uma outra irmã foi dada para uma tia, que tinha um pouco mais de condição. Já meu irmão Jorge e eu fomos vender algodão--doce nas ruas.

Esse algodão-doce vinha de onde?

Tinha um cara na cidade que tinha uma fabriqueta de algodão-doce. Isso inclusive era um problema, por que a gente saía com uma vara de algodão-doce e o acordo era que a gente tinha que vender primeiro a parte dele. O problema é que o algodão-doce vai murchando com o calor, então nossa preocupação era vender antes de murchar, por que senão a gente perdia e tinha que pagar para ele.

Como era a região de Alagoinhas?

A cidade fica no agreste, no final do Recôncavo Baiano e início do sertão. Alagoinhas é cercada por remanescente de quilombos, então é uma região com grande população negra. O Baixada da Candeia fazia parte das comunidades eclesiais de base (CEB),da Igreja Católica. Desde os anos 70 até final da década de 1980, a Igreja Católica se organizava através das CEBs.Muitas CEBs eram progressistas… Muito progressista. As CEBs eram orientadas pela Teologia da Libertação, uma espécie de interpretação marxista dos evangelhos bíblicos. Costumo dizer que é até uma devolução do marxismo à sua origem, que está no comunismo primitivo, que é o comunismo cristão, embora hoje haja cristãos ignorantes dizendo que o Brasil vai sofrer um golpe comunista, alimentando essa paranoia ridícula. Eles esquecem que, na verdade, o berço do comunismo é o próprio ideal cristão.

Então foi aí que você começou a militar?

Sim. As CEBs se organizavam através de pastorais. Eu participava da Pastoral Estudantil e da Pastoral da Juventude do Meio Popular, que era a pastoral dos jovens pobres, operários.

O que você fazia exatamente?

Haviam reuniões, discutíamos alguns temas e realizávamos ações, algumas coisas relacionadas à Campanha da Fraternidade. A gente visitava os camponeses, que eram chamados de roceiros, fazia trabalho de educação para adultos, participava do movimento estudantil, organizava grêmios nas escolas, trabalho de prevenção da Aids, de combate a drogas ilícitas. Era um trabalho amplo e voluntário.

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Qual era o grande embate político dessa época?

A eleição de 1989, que foi bastante disputada. Eu não votava ainda mas já estava engajadíssimo na campanha do Lula. Não era petista, mas participei da campanha porque o movimento pastoral era muito petista. Três forças acabam construindo o PT: a intelectualidade de esquerda, o movimento sindical e a esquerda católica.

Depois disso como foi essa relação com a Igreja?

Quando fui para o colégio interno me afastei da Igreja, não só porque passei no vestibular da escola técnica da Fundação José Carvalho, mas porque também acontece um episódio com um bispo, fui questioná-lo porque a Igreja não se abria para a questão homossexual. Ele disse: “Você está perdendo a fé. Quando alguém faz uma pergunta dessa natureza é porque está perdendo a fé”. Depois disso rompi com a Igreja.

Nessa época, você já tinha consciência da sua homossexualidade?

Sim, claro. Não tinha tido práticas homos- sexuais, mas já sabia quem eu era. Até porque a primeira vez que ouvi um insulto eu tinha seis anos. Ouvi a palavra viado contra mim, então, com catorze anos já tinha ideia do lugar onde fui posto por essa sociedade heteronormativa e homofóbica. E já tinha colocado, não por conta da minha orientação sexual, porque uma criança com seis anos de idade não tem uma orientação sexual ainda – a criança exerce um papel de gê- nero, que pode estar de acordo ou não com aqui- lo que a sociedade espera daquele gênero.

Como sua família percebia e lidava com tudo isso?

Minha família sofria, porque a homofobia não vitima só a pessoa, ela vitima a família toda. Eu tinha um pouco de vergonha de contar em casa a violência que sofria fora, na rua e na escola. Dentro de casa também sofri muita injúria dos primos, dos meus tios. É óbvio que minha mãe sofria muito com isso. A família quando vai defender o filho, não faz isso dizendo que o filho tem que ser o que é. Ela defende constrangendo e fazendo com que ele evite o comportamento que o faça sofrer a violência. Essa era a questão, minha família agia assim.

Já tinha começado a paquerar.

Claro, mas só que não tinha o namoradinho. A violência contra os homossexuais começa aí.Não se pode viver uma sexualidade saudável como qualquer outro adolescente. A gente tem um período de profunda solidão.

Nessa época você passou na Fundação José Carvalho, em Pojuca. Como era essa escola interna?

Era um colégio para alunos com altas habilidades.Eles selecionavam estudantes nas escolas públicas, que estivessem acima da média e não éramos convidados a fazer um vestibular. Na primeira seleção faziam um teste psicológico e uma prova de português e matemática. Depois dessa primeira bateria selecionavam oitenta candidatos que passavam um mês sendo avaliados de diversas maneiras, em diferentes atividades. Desses oitenta eram selecionados 25 para cursar. A gente tinha três opções de cursos: tradutor e intérprete, técnico de mineração e ciência da computação. Eu escolhi essa última porque deduzi que me colocaria melhor no mercado de trabalho.

Qual era a diferença entre essa escola e as demais?

Era um colégio incrível, com ensino individualizado. Não tinha professor em sala de aula, era o aluno que construía seu próprio saber. Os conteúdos das diferentes disciplinas estavam divididos em módulos. Cada módulo correspondia a uma carga horária. Por exemplo, o con- teúdo de algoritmo, que é um conteúdo que o aluno cursa durante um ano, no ensino médio, a gente fazia em módulos de 30 horas. De fato era para alguém que tinha habilidade de assimilar conhecimento.

Realmente, só para excepcionais...

A Fundação José Carvalho queria formar uma elite pensante de pessoas vindas da pobreza. E a gente era aprovada por mérito. Era um elogio à meritocracia, mas o próprio saber que recebemos nos dava a ideia de que, na questão da meritocracia no mundo, as pessoas não partem do mesmo lugar. Algumas pessoas estão com uma vantagem muito grande que a classe econômica deu a elas. Depois dessa reflexão, fizemos o questionamento do porquê aquela escola não era para todo mundo e iniciou um movimento político dentro da escola. Saí de lá com uma formação muito ampla. Fiz vestibular e fui aprovado.

Porque você escolheu a faculdade de jornalismo?

Sempre quis ser jornalista e trabalhar com comunicação. Dessa escola a gente já saía empregado e fui trabalhar em um hospital, depois trabalhei em um empresa que oferecia consultoria na área de informática e em uma rede de supermercados. Mas no quarto semestre da faculdade, abandonei essa profissão para ser estagiário de jornalismo na Tribuna da Bahia, um jornal tradicional de esquerda. Grandes nomes tinham passado por esse jornal, entre eles Jorge Amado, Antônio Torres, João Ubaldo Ribeiro. Embora em outra fase, eu também passei. Minha vida mudou muito porque ganhava bem como programador e salário de estagiário era muito ruim, além disso, o jornal estava em crise e atrasava o pagamento.

E sua vida política?

Em Salvador voltei a me engajar, dessa vez não mais na igreja. Já como gay assumido e um ativista mesmo.

Esse engajamento foi em algum movimento na universidade?

Não. Com grupo fora, independente. Na universidade estava ligado ao movimento estudantil, mas muito pouco tempo para me dedicar, porque tinha que trabalhar. Na minha turma da faculdade de Comunicação eu era o único aluno que trabalhava. O que fiz foi conduzir minha atividade jornalística para o trabalho social. Eu era o repórter que trabalhava as causas sociais. Também abri espaço para isso, sugerindo as pautas dentro desse tema. Tornei-me um jornalista amigo da criança e do adolescente, que é um título concedido pela Fundação Ayrton Senna. Junto com outra jornalista, Monica Celestina, fizemos uma série de reportagens que denunciavam fraude milionária no INSS e concorremos até ao Prêmio Shell – mas não ganhamos, óbvio, o Nordeste ganhava muito pouco.

E sua vida acadêmica?

Sempre fui ligado à vida acadêmica. Terminei a faculdade e entrei no mestrado, no Instituto de Letras. Por sugestão de minha orientadora comecei a estudar as narrativas de presidiários e o boom editorial depois da publicação de Estação Carandiru, de Drauzio Varela. Fiz um estudo comparado da cobertura da Folha de S. Paulo e Notícias Populares, analisando os autos do processo e as verdades que saíam daí – pego uma noção de verdade de Michel Foucault. Tem um conceito dele que é o de “jogos de verdades”, em que ele diz que a verdade é produto de uma disputa de diferentes discursos. A verdade sobre a chacina do Carandiru é fruto de disputa na cobertura desses dois jornais, um de classe A e outro classe C, o discurso jurídico e o testemunho dos presos, através da literatura de presos.

Essa disputa pelo consenso também foi vista nas manifestações..

Foucault vai dizer isso, que a verdade não é metafísica, mas produto de um jogo. Há discursos em disputa, que implicam relações de poder e que acabam impondo verdades.

Depois do mestrado, o que aconteceu?

Comecei a dar aula na própria faculdade de Comunicação e, no momento em que não pude conciliar com o jornalismo, deixei o jornal e fui ser professor universitário. No doutorado eu deveria dar continuidade a essa pesquisa de narrativas de presidiários, mas decidi mudar porque havia um programa de televisão que era um sucesso, que era o Big Brother Brasil. Eu não tinha tempo de ver, porque dava aula o dia todo e à noite. Decidi estudar o programa, pois lia os artigos no jornal e os comentários nos cadernos de cultura e via que todos falavam mal do programa. O programa era campeão de audiência. Alguma coisa estava errado aí. Esses caras, a partir de seus critérios, estavam falando o que era de bom gosto e mau gosto, ou havia ali um grande equívoco de leitura, porque o programa era um sucesso. Queria fazer um estudo diferente, não apenas ver o programa de casa, mas por dentro do programa. Foi aí que decidi me inscrever.

A homossexualidade foi o que chamou mais atenção, mas você colocou outras questões também.

Chamou a atenção porque ninguém nunca tinha dito com tanta tranquilidade e tanto orgulho que era gay. Não só disse, mas fui vivendo de modo a dignificar a homossexualidade. Isso é político. Venci o programa, que também foi algo histórico e de valor político. Não só porque eu sou homossexual, mas porque combino outras questões consideradas subalternas, como por exemplo, o fato de ser baiano, nordestino, não sou bonito, não faço a linha saradão.

Como foi sua aproximação com a política?

No final de 2006,ACM Neto me convidou para ser candidato a vereador em Salvador, na chapa dele, pelo DEM, que já foi PFL, que tinha sido PDS e Arena. Só que eu não tinha identificação ideológica nenhuma, apesar de ter trabalhado no jornal da família dele, mas era outra coisa. Em 2008, fui participar de uma audiência pública no Senado, sobre Estado laico. Fui convidado para fazer uma fala sobre a laicidade do Estado. Quando terminou essa audiência senadores do PT se reuniram comigo. Nessa ocasião Aloízio Mercadante disse que deveria me filiar a um partido e me candidatar, que tinha todas as condições: tinha popularidade, formação. Mas eu disse que não, que preferia estar em movimento social independente. No final desse mesmo ano, encontrei com a Heloísa Helena, do PSol, que me fez o mesmo convite. Com isso comecei a pensar que talvez esse fosse o caminho, já era a terceira pessoa de destaque nacional que tinha falado a mesma coisa.

E como foi a escolha pelo PSol?

Nessa época eu já estava morando no Rio de Janeiro. E os dois partidos com que tinha mais afinidade ideológica eram o PT e o PSol. De fundo não há muita diferença, são dois partidos de esquerda. Hoje, o PT, por estar no governo, a gente pode dizer que virou um partido de centro-esquerda.

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Há quem discorde profundamente disso, de que não há diferenças.

Tem pessoas dentro do PSol que discordam disso, mas o PSol também é um partido de tendências.

Isso é verdade, e cada vez mais.

A concepção da Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST) não é a mesma da Insurgência. O que quero dizer é: aqui tinha dois partidos com os quais me identificava, um tinha a ver com minha origem, na relação com o PT e com o movimento pastoral e tinha outro partido com o qual simpatizava. E no Rio de Janeiro me agradava mais, aqui no Rio o PT estava muito ligado ao PMDB. Por conta disso, escolhi o PSol, também em função do convite da Heloísa Helena, que foi um convite afetuoso.

Quando foi sua filiação?

Filiei-me ao PSOL em 2009 e a ideia era de não ser candidato já em 2010, era maturar minha relação com o partido; mas aí ela me convenceu a
ser candidato. Quando decidi ir para o PSol não foi apenas pelo convite da Heloísa Helena, que já naquele momento estava em conflito com tendências do partido, tanto é que hoje ela está isolada e ameaça sair do partido, aliás ameaça não, acho que está certo que ela vai sair para integrar a Rede, da Marina Silva. O fato de eu ter vindo para o partido via Heloísa Helena, somado ao fato de eu ter uma relação com a televisão, com a rede Globo em especial, fazia com que a maior parte dos filiados ao partido no Rio de Janeiro me vissem de maneira reticente.
Com muita resistência. Na cabeça de algumas pessoas nasci de uma chocadeira, dentro de um programa de televisão. Não tinha uma historia anterior.

Em 2010 você foi candidato pela primeira vez. Como foi essa campanha?

O partido não tinha recursos e se tivesse não seria aplicado na minha campanha, mas na campanha de candidatos que tinham uma ligação histórica com o partido. Utilizei recursos meus e fiz uma campanha modestíssima, custou apenas R$ 20 mil. Fiz um site, imprimi panfletos, custeei os deslocamentos para as cidades da região metropolitana, e não tinha inserções de rádio e TV. Ainda com essa campanha invisível fui o segundo mais votado do partido. O Chico Alencar teve uma votação estupenda de 40 mil votos e eu tive 13 mil.

Na eleição desse ano você teve mais de 140 mil votos, uma diferença enorme do seu primeiro mandato. Quais as razões e o que mais chamou a atenção em relação à sua atuação como deputado?

Conduzi o mandato conforme tinha dito. Foi uma surpresa para todos, porque a princípio a imprensa me colocava no rol das celebridades, por conta da minha história com o Big Brother. Era injusto, pois não fui eleito porque era celebridade, mas graças ao coeficiente eleitoral do partido. Mas no terceiro mês de mandato o tratamento já era outro, porque já tinha mostrado a que vim. Cheguei e reestruturei a Frente Parlamentar Mis- ta pela Cidadania LGBT, estrategicamente escolhi uma comissão que ninguém esperava que fosse escolher para reafirmar direitos humanos. Então isso foi mudando minha relação com a imprensa escrita e também da televisão. A Marília Gabriela me convidou para uma entrevista e isso foi um divisor de águas.

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Quais as principais conquistas do seu mandato? Que diferença você fez no Congresso?

A primeira diferença é o fato de ser homossexual assumido, isso por si só já tem um valor político muito grande. Entre os 513 deputados federais há um que se assume homossexual e de maneira orgulhosa. Minha conduta lá dentro, minha relação com os deputados e a maneira com que conduzo as pautas despertam um respeito muito grande. Isso é muito importante do ponto de vista político, porque aquele garoto, que está em Araraquara (SP), no interior do Piauí, aquele garoto gay, que cresceu em uma sociedade homofóbica, ao ver uma pessoa homossexual no poder, no parlamento, na tribuna, com voz e com respeito, ele vai dizer: “É possível”. Por isso sou tão atacado e há tanta calúnia e difamação contra mim, promovidas por fundamentalistas religiosos e por fascistas. Eles sabem que minha conduta e meu exemplo contraria o discurso homofóbico.

Antes de você, os gays respeitados estavam mais no campo das artes.Era permitido ser gay em certas áreas, mas a política não estava entre elas.

Na política não podia. A primeira diferença foi essa. A segunda tem a ver com a conduta política. Nunca fui o deputado LGBT, nunca me ocupei só desse tema, coloquei essa questão sob o guarda--chuva dos direitos humanos. Também participei e produzi o relatório da CPI da exploração da criança e do adolescente; a campanha pelo casamento igualitário, que meu mandato conduziu e que culminou na decisão do Judiciário; a regulamentação do casamento civil, que veio do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), aconteceu muito em função de uma provocação do meu mandato. Hoje os homossexuais podem casar. Só não foi dado força de lei, porque o Código Civil não foi mudado, mas continuamos com a campanha para mudar isso também. Essas e outras atuações resultaram nos 145 mil votos dessa última eleição. Foi o chamado voto de opinião ideológico. As pessoas que votaram em mim, sabiam no que estavam votando.

O que o levou a apoiar Dilma?

Da maneira como se desenhou a eleição no segundo turno, era necessário que o se posicionar fosse além do muro. Se desenhou uma polarização, em que do lado de lá, do Aécio, se congregavam forças conservadoras, não apenas do ponto de vista econômico, como também do comportamental e moral. Figuras que chantagearam o governo Dilma durante esses quatro anos, miram para o lado de Aécio como ratos que abandonam o navio. Então, o Aécio tinha o apoio de Marco Feliciano (PSC), Pastor Everaldo (PSC), Eduardo Cunha (PMDB), Levy Fidelix (PRTB). Ele também tinha o apoio da Marina Silva, mas era um apoio tímido. Ela apresentou algo a Aécio e ele recusou, que era a questão da maioridade penal. Eu jamais poderia aderir a um candidato que tem como bandeira a redução da maioridade penal. Além disso, há uma coisa nova que é o antipetismo, que não necessariamente é o PSDB, mas que acabou migrando para esse partido. Esse antipetismo em algum momento também gravitou em torno de Marina. Esse antipetismo é contrário a todas as pautas que eu defendo.

Você não acha que esse antipetismo beira o irracional?

É irracional. Ele tem um preconceito de classe, portanto classista, ele pratica um racismo geográfico, abjeto, como a gente viu no ataque aos nordestinos. É homofóbico, os ataques que sofri por apoiar a Dilma eram todos de natureza homofóbica e sexista. Esse antipetismo, de tinta fascista, é contrário às minhas pautas. As esquerdas precisavam se unir, conversei com Marcelo Freixo (PSol--RJ) e partimos para a campanha. Foi muito significativo, porque não somos petistas e temos uma ligação muito forte com a juventude, então a gente tirou a culpa que impedia a esquerda de defender o governo Dilma, por tudo o que o governo fez: as traições do governo Dilma, os recuos e as covardias nesses quatro anos. Todo mundo estava envergonhado, mas ficou claro que, apesar de tudo isso, ainda havia espaço para debate e o que o governo fez para a maioria do País era muito significativo. Não podia ser perdido para um programa de governo como o do Aécio, que era sim uma ameaça às conquistas sociais, por mais que se diga que não.

Porque você acha que era uma ameaça às conquistas sociais?

Havia uma contradição de fundo, entre o que o eleitor do Aécio esperava e o que ele dizia. O eleitor do Aécio esperava cortes nos gastos com políticas sociais, considerava que o Bolsa Família é uma esmola e um instrumento de compra de votos. Não todos, mas uma parte considerável dos eleitores de Aécio chamava o Bolsa Família de bolsa vagabundo, de bolsa esmola. E o Aécio dizia que iria ampliar esse programa. De fato, existia uma contradição. Por isso decidimos entrar na campanha e unirmos as esquerdas. Os movimentos sociais também entraram na campanha, o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), por exemplo, emitiu uma nota de apoio à Dilma. Foi isso que fez vitória da Dilma. Nossa ideia agora é disputar o governo e trazê-lo mais para a esquerda. A gente sabe que o governo ainda compõe com forças conservadoras, mas o governo vem sendo traído pelo PMDB.

Existe ambiente para uma frente de esquerda no Congresso?

Sim, existe. A gente quer construir essa base informal de apoio da esquerda ao governo Dilma, não apenas no Congresso, mas também gostaríamos de manter os movimentos sociais unidos e relacionados para também defender o governo nas suas políticas de esquerda. O Congresso Nacional está preparando mesmo um retrocesso e uma desestabilização do governo Dilma nessas políticas. A gente precisa fazer frente a essa oposição de direita, mas também à própria base aliada, que é o PMDB, que é uma base traidora, chantagista.

Qual a posição do PSol?

Defendo que o PSol integre. Tenho conversado com o Ivan Valente (SP), Chico Alencar (RJ) e o Edmilson Rodrigues (PA), para que a gente faça parte dessa força. É a hora, inclusive, de a gente reafirmar nossa identidade nacional, que não é anti PT. O partido nasce de uma ruptura com o PT, mas não precisa ficar evocando a figura do antipetismo. Nada é pior do que defender sua identidade negativamente: eu sou antifulano. No anti já se coloca o fulano. Como diz uma música da Vanessa da Mata: “Peço tanto a Deus para esquecer/ Mas só de pedir me lembro”.

O Brasil de hoje lembra a Venezuela de 2002, quando a direita venezuelana radicalizou e polarizou o país, que leva o governo Chávez a radicalizar do outro lado. A impressão que dá é que esse em bate político não vai diminuir.

Não vai diminuir. Dividido o País já está. Todo o movimento do PT no poder foi em função de diminuir essa divisão, costurar esse País dividido e reduzir o fosso entre ricos e pobres. Esse país está dividido há tanto tempo.

E não é nem ao meio, a classe endinheirada é bem menor que a outra parte.

Não é ao meio, mas é divido. E quem radicalizou foi o PSDB, embora queiram botar isso na conta do PT, e a imprensa reproduz muito esse discurso do PSDB. Radicalizou no racismo geográfico, no sexismo em relação à Dilma, na associação irracional do PT com a corrupção, como se só o PT praticasse, na cegueira moral de quem não enxerga seus próprios defeitos e sua incompetência de gestão, como a crise da água em São Paulo. A polícia de São Paulo é uma das que mais mata e o alvo é a periferia, são os jovens negros. Ou seja, quem radicalizou foram eles, exigindo que o lado de cá radicalizasse também. Essa polarização aconteceu a partir do avanço da direita raivosa.

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Você já teve algum embate direto com essa direita?

Outro dia, em uma reunião da Rede e Transformação Pública, o Marcos Pestana (PSDB-MG), ligado a Aécio, e o Floriano Pesaro (PSDB-SP) entraram nessa onda e tive que contestá-los. Disseram: “Você fez uma postagem sectária. Você disse que o tom da manifestação (anti PT) era fascista e não era”. Não era? As pessoas estavam pedindo ditadura, intervenção militar, com cartazes ofensivos aos nordestinos. Disse: “Vai me dizer que isso não fascismo? Vocês querem o quê? Tapar o sol com a peneira, fingir que são social-democratas quando na verdade estão cevando e alimentando a ultra-direita do Brasil fascista?”. O discurso do Lobão é o quê, quando ele diz que o comunismo está às vias de dar um golpe? Quando ele diz que os comunistas vão derrubar primeiro a imprensa.

É um discurso parecido com o da direita em 1964.

É anterior a 1964. Esse é o discurso da Guerra Fria. Essas pessoas estão loucas. Os bancos nunca ganharam tanto dinheiro, mesmo na Era Lula. Os ricos nunca foram tão ricos e continuam tendo privilégios. As pessoas estão se empanturrando de produtos Made in China e falando em golpe comunista. Isso é alimentar a burrice.

Contudo, essa polarização provocou uma discussão política inédita no Brasil. Foi a primeira vez que dois projetos de País estavam sobre a mesa e se discutiram modelos diferentes.

Não para todos. Para a maioria a coisa se tratava de antipetismo e petismo. Haviam pessoas que eram contra o PT e não havia como argumentar com elas. Eu perguntava: “Você conhece o projeto da Dilma, o que é que distingue a gestão tucana da petista?”. As pessoas não sabiam. Diziam depois: “Ah, porque estou cansado da corrupção”. Em um dos governos petistas houve corrupção, mas as pessoas foram presas e achincalhadas pela imprensa. Foram julgadas pelo Judiciário e julgadas moralmente. Se compararmos a quantidade de corrupção nos governos petistas e no de Fernando Henrique Cardoso, vamos ver que há muito mais no governo FHC. A Privataria Tucana envolveu um grande escândalo de corrupção que nunca foi julgado e punido. As CPIs nunca foram aprovadas. Os processos foram engavetados. Então não vem com essa história de corrupção. Se a gente for comparar os valores do escândalo dos metrôs em São Paulo, envolvendo o governo do PSDB, o Mensalão é troco.

Sobre esse tema, poderia falar da comitiva que visitou José Dirceu.

José Dirceu foi punido pela cobertura da imprensa, ele foi condenado previamente antes de ser julgado de fato pelo Poder Judiciário. E foi preso. Havia uma acusação de que Dirceu gozava de privilégios dentro da prisão. Um dos temas que nós, da Comissão de Direitos Humanos, trabalhamos é a questão da população carcerária. Baseado nessa acusação, o deputado Nilmario Miranda (PT-MG) fez um requerimento pedindo uma diligência até o presídio da Papuda para avaliar se havia privilégio ou não, porque o argumento do ministro Joaquim Barbosa para negar o regime semiaberto, ao qual Dirceu tinha direito, era que a imprensa tinha noticiado esse suposto privilégio; decisão com base em uma declaração e não em investigação. Quer dizer, não bastou condenar o cara, é um revanchismo, um ódio desmedido.

Como foi a visita?

Era uma comissão suprapartidária. Fizemos longas entrevistas com os gestores do presídio. Visitamos as celas e o Dirceu. Saindo de lá nós iríamos produzir um relatório, só que no caminho fomos interceptados pela imprensa. Nosso combinado era que não falaríamos com a imprensa, mas esse acordo foi descumprido pela Mara Gabrilli (PSDB) e pelo Arnaldo Jordy (PPS), que são oposição ao PT. Eles viram ali uma oportunidade de, não agir com justiça, mas de fazer política. Eles disseram na entrevista que havia privilégios. Na hora me calei, depois fiz um relatório e publiquei. O que vi, e o que todos vimos, a partir dos lugares que visitamos e as pessoas com quem falamos, é que não haviam privilégios. Muito pelo contrário, a prisão é uma desgraça para todo mundo. O único privilégio que ele tinha era o fato de ter uma família que cuida dele e o fato de ser José Dirceu, um cara com uma história de vida, manchada pelo escândalo do mensalão, mas ainda assim um cara com uma história de vida.

Mudando um pouco, qual é sua posição em relação à Reforma Política?

É fundamental que haja uma reforma política. Primeiro, é injusto o financiamento privado de campanha. Não é só injusto, desequilibra a competição, mas também porque abre as portas para a corrupção, pois não existe almoço grátis. Quem financia um deputado, um governador, apresenta a conta depois.

E o Congresso termina sendo uma representação de grupos de interesses.

Por isso mesmo que eles derrubaram o sistema de participação popular, implementado por decreto pela presidenta Dilma. Eles (os congressistas) não querem que as pessoas participem das decisões políticas. Eles estão lá com um poder legislativo usurpado pelo lobby, porque quem acaba legislando são os grupos de interesses. E eles falaram em usurpação do Poder Legislativo por meio dos conselhos populares. Isso é uma forma de desonestidade intelectual.

Você acha que a reforma é viável do ponto de vista político?

Todo mundo quer a reforma. O Marcos Pestana (PSDB–MG) gastou mais de R$ 4 milhões na campanha dele. Esse dinheiro foi doado por empresários e ele vai defender seus interesses lá no Congresso, mas mesmo esse cara, que tem que passar o chapéu, ele se sente um pouco humilhado em ter que agir de acordo com seus patrocinadores. Então todo mundo quer a reforma. Agora, existe divergências no que diz respeito ao voto distrital misto ou voto em lista. A princípio somos contra o voto distrital, não queremos vereadores federais, mais do que os já temos. Acho que o voto distrital abre espaço para o curral eleitoral.

Para encerrar gostaria de falar dos livros que fazem sua cabeça.

Uma das figuras que fazem minha cabeça é Eugenio Raul Zaffaroni, ministro da Suprema Corte Argentina. Ele escreveu um livro incrível chamado A Palavra dos Mortos. Michel Foucault também faz parte da minha formação, li toda a obra do Foucault. Hannah Arendt, para mim, é a grande filósofa do movimento gay, embora ela não tenha falado do homossexualismo diretamente, mas ela abre espaço. José Saramago é um escritor que eu amo, li tudo dele também, é minha grande referência literária. Gosto muito do Machado de Assis, Jorge Amado e Antonio Torres. Dos clássicos do pensamento brasileiro, como Gilberto Freyre, Milton Santos. Na academia li muito os teóricos franceses.

Você também escreve. Começa escrevendo contos e crônicas, mas seu último livro é político.

Na verdade os dois últimos são mais políticos. Publiquei quatro livros, o primeiro deles, A?itos - Crônicas e Contos, foi vencedor do Prêmio Copene de Literatura (atual Prêmio Braskem), da Fundação Casa de Jorge Amado. Depois veio o Ainda Lembro (Editora Globo), Tudo ao Mesmo Tempo Agora (Giostro Editora) e o Tempo Bom Tempo Ruim - Identidades, Políticas, Afetos (Companhia das Letras). Estou trabalhando no meu próximo livro, que será uma primeira novela. Ainda não tem data para ser publicado, mas deve ser em 2015. Gosto muito de ficção, mas meus textos também sempre foram políticos, tento chamar a atenção para alguma questão. Considero que toda arte é política. O que posso adiantar desse novo livro é que ele vai tratar de uma angústia comum a todos os humanos. Sobre algo que todos enfrentamos e que nos torna humanos.

 

Fania Rodrigues é jornalista.

 

 

 

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