Paulo Arantes: "O capitalismo está morrendo de overdose"

Grandes Entrevistas
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Em entrevista concedida para a edição 215 da revista Caros Amigos, o filósofo analisou o avanço da agenda conservadora no mundo todo

Por Aray Nabuco e Lilian Primi
Da Caros Amigos

Ao olhar para os cenários global e brasileiro pós-Jornadas de Junho, com o crescimento da direita, as novas estratégias capitalistas e os percalços do Partido dos Trabalhadores, o filósofo Paulo Arantes não esconde o ceticismo com a política institucional, tampouco poupa críticas à esquerda. Com um olhar aguçado de um dos intelectuais mais respeitados do País, detecta as mudanças pelas quais passa a sociedade – e o capitalismo – e que vêm colocando em xeque partidos, governos e toda uma tradição política militante.

Caros Amigos conversou por mais de duas horas na redação com o filósofo sobre um sortido de temas que vai da campanha eleitoral que quase tirou o PT do poder e as dificuldades pelas quais passa o partido; da crise do capitalismo e até o avanço conservador e os novos cenários e personagens políticos que emergiram nas Jornadas de Junho e para ficar. Das respostas – que por uma exceção concedida pela redação ele pôde revisar devido a referências de obras e fatos – surgem análises muito apropriadas a esses “no- vos tempos” protagonizados por militantes independentes, mascarados, crise de representatividade, coletivos ou uma direita raivosa e abusada que vai para rua erguer suas bandeiras conservadoras, entre outras novidades.

Caros Amigos - O senhor é um dos fundadores do PSol...

Paulo Arantes – Sim, assinei a ata de fundação. Estava em boa companhia: Chico de Oliveira, Carlos Nelson Coutinho, Ricardo Antunes, e tan- tos outros igualmente escandalizados com a re- viravolta petista, que acabara de beijar a cruz. E, uma vez de joelhos, teria de rezar. Não se tratava apenas de escolhas macroeconômicas reversíveis, mas de toda uma virada de época. Sem volta, como a presidente Dilma está comprovando agora, beijando a cruz uma segunda vez. A vantagem de Lula em 2018 é que se reapresentará com a dita cuja beijada duas vezes. Se voltar a chover na horta das commodities será “o cara” novamente. Mas com a mudança climática em curso, daqui pra frente chuva e seca serão, sobretudo, eventos extremos. E não vai dar pra mandar a conta para a reação conservadora de turno.

Como viu a campanha para presidente?

O mesmo circo fetichista de sempre, só que pior a cada edição. Todo mundo sabe que naquela engrenagem nada mais é para valer, que todos aqueles rituais estão vazios, e, no entanto entram em cena e atuam como se não soubessem. Refiro-me à esquerda, é claro. A direita sempre soube.

E o desempenho de Luciana Genro? Votou nela?

Saiu melhor do que a encomenda. Defendeu com brio e galhardia seu papel de grilo falante esquerdista, como o Plínio na última eleição presidencial. Não digo isso para desmerecer, é o que restou, e não é pouco: fazer-se de desentendido em pleno picadeiro é uma arte. Tiradas à parte, o fato é que tanto a candidata quanto o PSol souberam como crescer na pauta dos valores de sociedade, a agenda da vez. Por não precisarem pagar o mico de ser governo, podiam se dar ao luxo do inegociável, e nisso desafiar a intransigência da nova direita.

Votou nela?

Não, não votei. Mas avisei com bastante antecedência.

Como o senhor viu o apoio de parlamentares do PSol à Dilma no segundo turno?

Foi coerente. São membros da mesma família histórica perdida no tempo. Compartilham a mesma memória política, internacional inclusive. Sempre haverá uma hora dramática, eleitoral para variar, de cerrar fileiras e levantar os punhos para esmagar o ovo da serpente. Depois a vida continua, piorada.

Já há quem defenda que Marcelo Freixo saia para prefeito. Como vacinar o PSol para não repetir as vicissitudes da “governabilidade”?

Se meu título eleitoral fosse carioca, precisaria amarrar a mão para não votar no Marcelo Freixo. Não há “vacina”, pois além do candidato ser ótimo, as chances são reais diante do avançado estado de gangrena política do Rio de Janeiro. Depois da festa, restará o acerto com os reais donos da cidade, pois se trata de um caso especial de governo direto de um território urbano pelas empresas. Mas pensando bem, não era esse o raciocínio que se fazia para assinalar o impensável de uma vitória lulista? E, no entanto, a analogia não cabe mais no Brasil de agora. O PSol também está mudando, é cada vez menos um partido socialista clássico confinado ao extremo do espectro, e cada vez mais também um partido de nicho, pelo me- nos foi essa a tendência que saiu fortalecida nas eleições. Como se diz no mundo em que os governantes governam, a agenda anda, e encontra-se no momento em seu quarto estágio. Depois de encerrar o capítulo ditadura por disfuncional, estabilizar a moeda inflacionada, reconstituir o mercado interno de consumo de massa, dito também de inclusão social, entramos, tardiamente para variar, na etapa da polarização por motivo de confrontos inegociáveis em torno de valores, fenômeno que nos Estados Unidos, onde parece que tudo começou no fim dos anos 80, foi batizado de guerras culturais. Do ponto de vista das campanhas eleitorais, o corte é ideal, é a festa dos marqueteiros arrombando portas abertas a preço de ouro. Basta enumerar as trincheiras para saber quem é inimigo de quem: aborto; casamento para todos; maioridade penal; todos os abolicionismos, do penal ao das drogas; controle de armas e desmilitarização das polícias; e claro, o decálogo LGBT, para ficarmos nos mais votados. Sem ironia. O céu aqui é o limite.

Na França da Lei do Véu, já andaram botando fogo em presépio por- que a república é laica. Até o aquecimento global já entrou na dança, dependendo de qual lado do front você esteja, será rotulado de profeta da desgraça ou negacionista. Como o regime presentista sob o qual vivemos nos tornou jurídica e politicamente contemporâneos de tudo e todos, as guerras culturais alcançaram a Conquista, a Escravidão, a Colonização, a lista em princípio não teria mais fim. Diz-se que no recreio dos liceus franceses a moçada se atraca xingando uns aos outros de colaboracionistas de Vichy ou cúmplices dos processos de Moscou. Já dá para perceber que cavando mais fundo nas ditas guerras culturais es- barramos na mesma lógica do acerto de contas, que ninguém se mostra mais interessado em abrir qualquer porta, do passado ou do futuro, dar enfim uma chance para a história avançar, como se dizia. Aí tem coisa, mal descrita pela bipartição usual entre conservadores e progressistas. Dou mais um exemplo e volto ao nosso possível candidato no Rio.

O grito de guerra coxinha “vai pra Cuba” é menos estapafúrdio do que parece. Sem dúvida é um grito da má consciência depois da baixaria corporativista com os médicos cuba- nos, somada ao complexo da merda de nossa saúde pública (a privada é quase a mesma merda, só que paga) e muitos sintomas mais, sabidos e não sabidos. Nesse grito extemporâneo que é de fato uma ameaça e não um folder turístico, tudo se passa como se a Revolução Cubana tivesse estou- rado na semana passada. Pois bem, o nosso possível candidato no Rio retira sua força por ser um resumo desse quarto estágio da agenda eleitoral, e não um resumo qualquer, mas o de um vencedor no combate às milícias, só para lembrar que a gestão direta da cidade pelas empresas conta com uma linha auxiliar armada. Terá, portanto, força para negociar. E se ganhar, pelo menos nos cem dias de trégua que a praxe talvez lhe conceda, terá quem sabe mostrado que é possível passar a limpo no velho repertório socialista a nova linha da quarta agenda: que os direitos humanos são de fato a última trincheira da luta de classes. Disso tudo reteria a menção à estação derradeira, à última utopia, a dos direitos humanos, na opinião de um estudioso americano, Samuel Mohyn.

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O senhor acha que o cenário que vimos na campanha tem relação com as Jornadas de Junho de 2013?

É claro que tem relação com as Jornadas de Junho. Rompeu-se um dique e houve uma inundação coxinha como nunca se vira. Toda essa água represada estava lá fazia tempo, ruminando em silêncio uma vingança qualquer, de re- pente o levante. Como o repertório governista é muito restrito e datado, concentraram-se nas duas teclas conhecidas, provocação esquerdista e conspiração midiática. Depois na campanha eleitoral foi o que se viu, havia uma raiva nova pairando no ar. A inédita vitória nas ruas de junho dera à legião coxinha a confiança que faltava. Ganhar no braço, e em movimento, correr da rua todos os vermelhos, reais e imaginários. Era uma questão de lógica que se completasse o serviço na eleição, e quase conseguiram, re- dobrando a fúria pela decepção de última hora na apuração. Parece psicologia social de bolso, e talvez seja. Penso, todavia que foi o desrecalque do grande medo de 2002, pelo qual nunca perdoaram seus responsáveis, no fundo inocentes, pois não pretendiam assustar ninguém. Até mandaram carta.

Fico acanhado ao ter que lembrar que ódio de classe no Brasil não tem cura. Nossa sociologia crítica formou-se procurando esclarecer a natureza desse misto de ódio e pânico provocado por toda e qualquer iniciativa destinada a aliviar a carga de opressão secular que desde a origem sufoca aqueles que se encontram na base da pirâmide. Entre tantas outras razões, concluiu-se até que era tão fundo e ancestral esse pavor que o povo esbulhado chegou a vislumbrar na relação de assalariamento uma via de escape relativo através do acesso a alguns direitos contratuais, tal a brutalidade da luta de classes básica em nosso País, a dos proprietários contra os sem nada, por aqui mexeu na propriedade homem vira bicho. Esse o segredo da mágica varguista. Pois vinte anos de ditadura baseada na tortura como política de Estado vieram para dar um suplemento de cruzada anticomunista a essa perene dessolidarização social, que é onde permanecemos meio século depois do golpe, longevidade que se explica também pelos novos medos inoculados desde então, não sendo o menor deles o temor reverencial pelos militares, como se pode ver agora no show de impotência da esforçada Comissão Nacional da Verdade.

Dito isso, acontece que a gesticulação acintosa da direita que quase levou tudo na última temporada, as ruas de junho, o Congresso, a Presidência por um fio, ofuscou um qua- dro muito mais complicado de divisão social que esse clássico campo contra campo. Não dá para continuar ignorando a expressiva votação da di- reita no campo popular. Quer dizer, aos poucos o pacto conservador que emoldurou o lulismo está reconduzindo o voto popular ao seu trilho histórico, desde a orfandade varguista. Um ano ou dois antes de junho já não eram mais tão raros os co- letivos militantes na periferia de São Paulo, que ao relatarem sua condição de estafa e desespero, ressaltavam um quadro profundo de preconceito, fobias políticas e vale-tudo de todos os gêneros. Portanto, devagar com o andor quando uma direita popular se insurge contra os pretensos vermelhos governistas.

Surgiram das jornadas dois novos perfis: uma esquerda jovem e desapegada de partidos e uma direita raivosa, que vai para rua, que usa as técnicas de manifestações que eram próprias da esquerda. Já conseguimos entender esse fenômeno?

Como acabamos de falar da direita, vamos às novidades da esquerda. Historicamente, a esquerda no Brasil, todas as nuances confundidas, sem- pre foi mais a favor do que contra. Até a história jogaria a favor de um país periférico, condena- do a avançar queimando etapas, condenado ao moderno, como se dizia, e sendo o moderno, capitalista por definição, contávamos com a mola propulsora da acumulação para efetuar nossa travessia da Colônia à Nação. Como até o assalariamento chegou a ser visto como uma alforria do jugo proprietário e a ordem social competitiva, um ideal superador do Antigo Regime, era natural que fôssemos mais anti-imperialistas do que anticapitalistas, sendo esta última atitude, aliás rara, anátema e sinônima de regressão romântica, como era costume dizer. Mesmo o esforço superador da condição subdesenvolvida era menos revolucionário do que industrializante, e centrado no protagonismo estatal. Dessa narrativa mítica, porém com forte apoio na realidade, surgiu uma esquerda devota do desenvolvimento pleno das forças produtivas e, por assim dizer, empenhada em botar para trabalhar cada vez mais gente. Não diria que não deu outra porque deu uma coisa completamente inusitada. Corta para nosso momento Bric.

Deixamos o subdesenvolvimento por uma condição dita emergente que nos alinha com outras economias capitalistas de Estado disputando com os velhos detentores da riqueza oligárquica mundial todo tipo de recursos de poder. E quais os mais desenvoltos e fervorosos combatentes desse combate pela História? A nossa velha e boa esquerda incansável de guerra, metida inclusive, desde que se tornou a parte mais esclarecida do bloco dirigente, nessa outra insana batalha de convencimento de uma recalcitrante burguesia, rebatizada muito a propósito de inter- na e não mais nacional. Pois enquanto vigorou, o consenso lulista entre proprietários dos meios de produção e seus gestores “populares” produziu outro consenso não menos perverso acerca de quem é quem dentro e fora do pacto da prosperidade emergente, em suma, saber de quem pode- mos passar por cima, basta estar atravessado no caminho de uma nova fronteira de acumulação, no geral por apropriação direta e em escala mega, do imobiliário à mineração. Mas só começamos a perceber no que andava metida a esquerda de governo, menos pelas famigeradas parcerias de tudo com todos, quando se multiplicaram e intensificaram os despejos selvagens, as remoções forçadas, os desaparecimentos nas periferias. Vou poupá-los dos mundos e fundos do sindicalismo financeirizado, da fratura do precariado, para não falar da “classe” alinhada com os megaprojetos ou com os empregos gerados por uma próspera indústria bélica, à qual vieram se juntar também as empreiteiras. Aí já era tarde, o capitalismo popular havia ampliado o campo da lei e da ordem, um mundo ameaçado por forças oponentes, sabotagens e agentes provocadores. Até que houve a explosão de junho, e os agentes oficiais do capitalismo popular de uma potência emergente de renda média se defrontaram nas ruas com uma exótica e incompreensível esquerda, recém desembarcada de um planeta desconhecido chama- do anticapitalismo. Mais desconcertante ainda, foram nocauteados por um enxame de pivetes.

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Só agora, atônitos, ao se sentirem prestes a serem defenestrados com a mudança de maré do mesmo rentismo no qual estavam enterrados até o pescoço, saíram a campo para cortejá-los e ampliar o cadastro dos movimentos. Como a mágica está chegando ao fim, parece que não vai dar certo. E, no entanto, essa esquerda anticapitalista amplamente minoritária fazia pelo menos uma década que manifestava pela ação direta de rua uma nota dissonante que até então no máximo atrapalhava o trânsito. Até que esse atrapalho en- tornou na total contramão da política tal como a conhecemos, nem mediação, nem representa- ção e todos os seus derivados e similares no re- pertório básico da esquerda histórica. Que rea- giu à altura de seus fantasmas. Sobrou para todo mundo: levante niilista, tumulto fascista, gangues mascaradas e coisas do gênero. Digerir a novida- de? Nem pensar. Até hoje não engoliram o fato abominável de que talvez haja uma ideia nova no País contrariando um século de nacional-pro- gressismo com todo seu cortejo de comandos e transmissão de palavras de ordem. Para piorar a maldição que paira sobre a ideia impatriótica de arquivar o senso comum nacional-popular, é que tal ideia intragável deu o ar de sua graça num momento de disseminação máxima entre o co- mum dos mortais, obrigados por lei a votar e a legitimar governos inoperantes, do sentimento de que a política não faz diferença em suas vidas. Ou quando a diferença é real a ponto de reduzir o sofrimento da pobreza extrema, como nos pro- gramas de transferência monetária condicionada, ela não é conquista de uma luta coletiva, mas efeito de um híbrido que deixaria Weber falando sozinho, racionalidade administrativa e carisma.

Não é mesmo fácil digerir essa ideia ainda não inteiramente identificada, acho que a ideia da ge- ração que vem. Pois esta geração terá sido edu- cada pela experiência de um sistema que se de- compõe sem a contribuição de qualquer inimigo estruturalmente designado para abatê-lo. É total- mente vã a procura do sujeito antagônico clássico, pois seu apodrecimento ocorre pela inexistência de qualquer molécula anticapitalista. A gangrena de um sistema que não cresce mais e só produz dívidas se alastra sendo todos a favor. Enquanto houver planeta para consumir, governos que cortam gastos e liquidam ativos públicos continuarão a ser reeleitos. E os governos autointitulados progressistas da América Latina estão entre os principais devoradores do planeta, sem falar que, como mostrou recentemente uma pesquisa de Lena Lavinas, para o Sul Global, o modelo de Transferências Monetárias Condicionadas (CCT, na sigla em inglês) revelou-se uma eficiente política de financeirização da pobreza. É isso aí. Como notou um insuspeito sociólogo alemão, ao desmantelar qualquer oposição, o capitalismo está morrendo de uma overdose de si mesmo. Creio que é isso mesmo que no fundo está dizendo Linda Tirado, num livro extraordinário sobre a vida dos trabalhadores pobres nos Estados Unidos hoje, ao responder ao preconceito mais difundido acerca dos pobres: por que vocês fazem coisas tão autodestrutivas? A propósito, por falar no esgotamento real das energias utópicas, recomendo as páginas de Linda sobre o cansaço, e como a raiva é abafada quando se está estupidamente cansa- do.

Tanto quanto um sistema que passou a operar em conjunto no modo “fim de jogo”: na base, tornou-se racional para os pobres passar a junk food; no topo, é cada vez maior a tentação de “vender tudo, pegar o dinheiro, queimar as pontes e deixar para trás apenas terra arrasada” e mesmo as esquerdas outrora organizadas hoje se encontram tão incapacitadas pela própria anomia do sistema que não conseguem mais nem mesmo sal- vá-lo, como na última grande guerra, o que dirá então derrotá-lo, soterradas pelo peso dos desastres diários. Restam os motins obviamente auto- destrutivos. Ninguém mais está disposto a esperar mais nada.

Esse – vamos chamar de – “desgaste” do PT, os problemas na economia, são sintomas de que o partido cumpriu seu ciclo no governo? Quer dizer, parte dos que estão decepcionados enxergam o PT hoje como um partido como outro qualquer.

Como de fato todo um ciclo chegou ao fim, os balanços mais isentos não deveriam tardar. Acontece que se está verificando o oposto no clima de fim de feira de agora, pois também aumentou a cegueira da esquerda a seu próprio respeito. Mesmo a política de frente única que está se anunciando é meramente defensiva, além de chegar muito tarde, de fato para o enterro inédito no Brasil, esse o meu ponto. A decapitação dos comunistas e de sua dissidência armada pelo Golpe de 64 levou junto sua estratégia de tomada do poder. Inútil especular sobre o que poderia ter sido caso sobrevivesse à catástrofe. Um prefeito comunista de São Paulo? Uma contradição em ter- mos ou um decalque do PT, criador patenteado da fórmula.

No caminho da inédita conversão da maioria social em maioria política, o confronto simultâneo com a ditadura e a combalida tradição vanguardista das organizações leninistas, o PT foi preparando o terreno para a recepção, digamos socialista para abreviar, de noções e entidades que também na Europa estavam estreando roupa nova, da redescoberta da democracia na esteira do repúdio ao mundo soviético em ruínas ao reconheci- mento da centralidade dos direitos, passando pela reativação em nova chave da questão social. Graças à galáxia movimentista reanimada pelo PT nos anos 80, o País conheceu uma inédita reinvenção do “social”. Aquele mesmo social que na Europa foi criado para apaziguar o povo inconformado e frustrado pelo casamento da república dos iguais com a economia de mercado, no Brasil da dívida social de nascença, a nova esquerda concebeu o trabalho social como um prolongamento, quando um poder de Estado redescrito como uma agência fornecedora de bens públicos na terra do patrimonialismo selvagem? E mais, em gestão de esquerda de políticas públicas? Resumo de época: nos engajamos, e cada vez mais participativos, nunca nos governamos tanto.

É preciso tirar o chapéu. Pela primeira vez governar, em sentido amplo, de um mutirão de periferia ao gabinete de um mandato, produzia conhecimento social inédito e seus agentes específicos, uma espécie nova de intelectual público, em cuja caixa de ferramentas se encontrava um sem número de novas habilidades, do militante-socorrista ao pesquisador em missão. Saúde pública e saneamento básico, para dar exemplos antípodas, podiam agora gerar saberes combativos e de fronteira. Ocorre que por essa ver- tente, a tradição militante de que falávamos, no momento mesmo em que rejeitava a redução da política seja à dominação dos homens ou à mera administração de coisas, reencontrava uma outra costela de Adão do governo do Brasil, a dos assim chamados homens públicos, tanto faz, ou muito pouco, se conservadores, liberais e finalmente desenvolvimentistas, que simplesmente, ao começar do nada, consolidaram o papel exclusivo do Estado no processo, violento ao seu modo, de desentranhar algo parecido com um país de uma colônia de exploração mercantil. Miragem ou não, o fato é que ergueram um Estado peculiar, sempre na iminência de ser devorado pela praga nacional do patrimonialismo, por sua vez, como lembrado lá atrás, senha para o toque de reunir de todas as vocações para a responsabilidade que animam a tradição crítica brasileira, cujo lugar geométrico, de um modo ou de outro, encontra-se nesse aparato governativo a ser reconstruído ao término de cada ciclo predatório. Ao também se tornar, ao seu modo próprio, governo, a tradição militante, transfigurada pelo petismo que encorpava, cruzou o caminho da outra, insuflando-lhe dos ossos de um programa que nem chegou a entrar em campo quando ainda havia chances, bem lá atrás. Precisamos saber o que realmente se desgastou agora que o PT luta apenas para sobreviver.

Entre tantas outras iniciativas memoráveis, vou me concentrar na mais notável, a meu ver. O PT simplesmente in- ventou o governo de esquerda no Brasil, algo sem paralelo em nossa memória política. E isso muito antes de alcançar o poder executivo federal. Não sabíamos o que era isso. Salvo por contraste, tampouco ajuda a comparação com a social democracia, para não falar no eurocomunismo. Volto a lembrar que o Estado Social europeu é fruto do pacto político do pós-guerra. Por mais que aquele arranjo tenha confirmado as funções de acumulação e legitimação cumpridas pelo Estado então re- construído com a reorganização do capitalismo depois da Grande Depressão e da Guerra, e a consequente funcionalidade de todas as instituições do Welfare, é bom não perder de vista que a força social capaz de impor aquela virada distributiva te- ria faltado não fosse a clareza do recado enviado a uma burguesia no geral conivente com o fascismo derrotado na guerra: nem pensar em voltar ao estado de coisas anterior ao conflito de 1914-1945, a república será social ou a revolução voltará à ordem do dia como em novembro de 1918 na Ale- manha. Que Welfare de verdade se poderia esperar de uma transição pactuada com uma ditadura que não foi sequer desarmada? E no entanto, encontrou-se um caminho do meio absolutamente inédito no Brasil, esse o meu ponto. A decapitação dos comunistas e de sua dissidência armada pelo Golpe de 64 levou junto sua estratégia de tomada do poder.

Inútil especular sobre o que poderia ter sido caso sobrevivesse à catástrofe. Um prefeito comunista de São Paulo? Uma contradição em termos ou um decalque do PT, criador patenteado da fórmula. No caminho da inédita conversão da maioria social em maioria política, o confronto simultâneo com a ditadura e a combalida tradição vanguardista das organizações leninistas, o PT foi preparando o terreno para a recepção, digamos socialista para abreviar, de noções e entidades que também na Europa estavam estreando roupa nova, da redescoberta da democracia na esteira do repúdio ao mundo soviético em ruínas ao reconheci- mento da centralidade dos direitos, passando pela reativação em nova chave da questão social. Graças à galáxia movimentista reanimada pelo PT nos anos 80, o País conheceu uma inédita reinvenção do “social”. Aquele mesmo social que na Europa foi criado para apaziguar o povo inconformado e frustrado pelo casamento da república dos iguais com a economia de mercado, no Brasil da dívida social de nascença, a nova esquerda concebeu o trabalho social como um prolongamento, quando não a finalidade, do engajamento político. E com isso, entre outras coisas, refundou o serviço público que a Era Vargas encaminhara e a Ditadura abastardara. Abriu-se o campo para uma outra cultura de governo, antecipada e alimentada em seu marco zero pelas setoriais do partido, como os veteranos devem lembrar e lastimar a anemia.Que o governo do social reinventado tenha dado no seu contrário é outra história que temos que investigar a sangue frio. A meu ver, a virada decisiva que tornou possível pensar seriamente em governar, desviando-se da estratégia clássica dos dois passos seguida pela esquerda clássica (poder popular só depois da aniquilação do poder burguês), deveu-se à descoberta movimentista da centralidade da política enquanto ato fundador de uma esfera emancipada do mundo das necessidades. A transição propriamente dita pode ser descrita como aquele tempo conjuntural específico em que o dogma materialista da política como luta e dominação foi abandonado e arquivado.

Quem jamais sonharia com políticas públicas de esquerda arrancadas de um poder de Estado redescrito como uma agência fornecedora de bens públicos na terra do patrimonialismo selvagem? E mais, em gestão de esquerda de políticas públicas? Resumo de época: nos engajamos, e cada vez mais participativos, nunca nos governamos tanto. É preciso tirar o chapéu. Pela primeira vez governar, em sentido amplo, de um mutirão de periferia ao gabinete de um mandato, produzia conhecimento social inédito e seus agentes específicos, uma espécie nova de intelectual público, em cuja caixa de ferramentas se encontrava um sem número de novas habilidades, do militante-socorrista ao pesquisador em missão. Saúde pública e saneamento básico, para dar exemplos antípodas, podiam agora gerar saberes combativos e de fronteira.

Ocorre que por essa vertente, a tradição militante de que falávamos, no momento mesmo em que rejeitava a redução da política seja à dominação dos homens ou à mera administração de coisas, reencontrava uma outra costela de Adão do governo do Brasil, a dos assim chamados homens públicos, tanto faz, ou muito pouco, se conservadores, liberais e finalmente desenvolvimentistas, que simplesmente, ao começar do nada, consolidaram o papel exclusivo do Esta- do no processo, violento ao seu modo, de desentranhar algo parecido com um país de uma colônia de exploração mercantil. Miragem ou não, o fato é que ergueram um Estado peculiar, sempre na iminência de ser devorado pela praga nacional do patrimonialismo, por sua vez, como lembrado lá atrás, senha para o toque de reunir de todas as vocações para a responsabilidade que animam a tradição crítica brasileira, cujo lugar geométrico, de um modo ou de outro, encontra-se nesse aparato governativo a ser reconstruído ao término de cada ciclo predatório. Ao também se tornar, ao seu modo próprio, governo, a tradição militante, transfigurada pelo petismo que encorpava, cruzou o caminho da outra, insuflando-lhe nova vida por assim dizer retrospectiva, reconhecendo-se sem dificuldade em figuras exemplares como Celso Furtado, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro etc. completando-se a conversão da classe trabalhadora organizada ao esforço nacional de de- senvolvimento do poder do Estado.

Tanto mais que este poder não definhou com as privatizações, pelo contrário, aumentou sua capacidade de estreitar os laços entre todos os agentes concernidos pela acumulação, nela incluída os fundos ligados ao sindi- calismo financeiro. Falta mencionar, mas apenas mencionar, a terceira perna desse governo do Bra- sil que, em conjunto ou sucessivamente, tucanismo e lulismo consolidaram. A redescoberta da política, como se viu, deixando para trás com relíquia arcaica a política da luta de classes, em qualquer de suas duas versões antagônicas, liberal e socialista, recebeu sangue novo também da reviravolta gestionária do mundo corporativo, que por seu turno também reinventou o social, mais exatamente a responsabilidade social, e tudo o mais que daí se segue, anunciando que a política dos políticos era mesmo o que as pes- soas pensavam, um lixo.

E tudo com muita participação e sociedade civil ativa e propositiva. Perversa ou não, deu-se uma confluência inédita, com o aparato estatal e adjacências operando segundo a mesma lógica gerencial. Não é que a reinvenção petista da política tenha sido anulada ou seques- trada, simplesmente seus futuros parceiros se puseram em movimento ao também se darem conta que seu público alvo se movera. Juntando as três pernas dessa fórmula tripartite de governo do País, teremos enfim identificado, na sua real natureza de tecnologia social de poder, o famigerado dispositivo chamado neoliberalismo. O PT foi um de seus inventores. Ao beijar a cruz estava mesmo contem- plando sua própria imagem no espelho do capitalismo contemporâneo. Estava certo. Se então é para falar em “desgaste”, ele se refere ao conjunto da obra em seus três atos e atores. Esse o alvo real das manifestações de junho e de tudo o mais que veio depois. Os que imaginam surfar daqui para frente no levante coxinha vão quebrar a cara se acharem mesmo que o petismo é o único alvo da raiva geral.

A esquerda está fadada a fazer concessões?

Como qualquer um que não seja psicopata. O problema é que em mais de uma ocasião, e, não por acaso, em alguns momentos decisivos, o PT exagerou na dosagem do princípio de realidade. Foi assim com a Carta aos Banqueiros em 2002. Mas agora, no momento em que lhes respondo, ao anunciar um ministério que deixaria Collor enrubescido, poucas semanas depois de entregar a política econômica do novo mandato a um mero executivo da alta finança que acabara de derrotar nas urnas, embora os bancos lhe tivessem fi- nanciado a campanha tão generosamente quanto a do seu adversário, a presidente Dilma deu um passo à frente em direção a um princípio novo, o da irrealidade. É forte a impressão de completa de- sarticulação, de catatonia profunda mesmo.

Pulsão de morte? Ante tamanho destrambelho deci- didamente a própria palavra “concessão” já não faz mais o menor sentido, se é que ainda fazia em nosso novo tempo do mundo, pois sempre encerrou um fundo de fé progressista no progres- so, no caso progresso do esclarecimento social, onde o recuo de agora é a garantia do avanço mais à frente, assim na política como na guerra. Não mais. Tudo se passa como se o capitalis- mo desorganizado es- tivesse desorganizando também a sua própria oposição, sem receita, não digo nem para salvá-lo in extremis, como fez quando sua sobrevida esteve por um fio à bei- ra do apocalipse nazi, mas para escapar ela mesma, esquerda histórica, ao abraço dos afogados. Pois é esta a ideia nova em torno da qual estamos girando: o falso triunfo do capitalismo na Guerra Fria finalmente está nos levando a conceber o fim do capitalismo não como um evento mas como um processo, o fim de um fenômeno histórico que assim como começou deve acabar, mas um fim cujo desenrolar não seguirá nenhum plano, nenhuma toupeira vai escavando túnel algum, não se trata de mais uma crise de longa duração abrindo janelas de oportunidades para movimentos reformistas ou revolucionários.

Como no fundo ainda esperamos por eles, o máximo que conseguimos discernir em meio à neblina, e repudiar com desânimo redobrado, são rebeliões primitivas que reforçam ainda mais a desordem. Ainda não aprendemos a viver sem receita. Aliás, foi mais ou menos isso que anteviu outro sociólogo, Silvio Mieli, num breve comentário em torno de suas primeiras impressões das manifestações de junho. A seu ver, a idade épica das guerras e revoluções emendando umas nas outras, como na profecia verdadeira de Lênin, ou de Nietzsche, para as almas mais sensíveis, ficara definitivamente para trás, dando lugar a sublevações em que o corpo social se insurgirá através de uma série de atos profanatórios. Tudo somado, fazer ou não fazer “concessões” significava justamente naquele antigo tempo do mundo atrasar ou adiantar o relógio da história em cujo quadrante soaria a hora final. Só contemporizava quem julgava controlar o tempo, caso contrário era submeter-se à tirania da pequena política. Nossa imaginação continua prisioneira da ideia de uma intervenção salvadora que estanque uma hemorragia fatal, cortando o mal pela raiz. Em 2008, o diagnóstico era de morte iminente do sistema por falência múltipla financeira.

À beira do precipício, os poderes centrais com- petentes não pensaram duas vezes: decretaram o estado de emergência econômica e torraram trilhões na operação de resgate, mas ficou a impres- são de que salvaram o mundo na hora H. Pergunta de veterano inconformado com a falta de ideias e iniciativa da esquerda mundial, salvo denunciar o esbulho ciclópico: por que diabos não nos anteci- pamos e puxamos nós o freio de emergência? Sair à rua em massa e indicar a porta de saída. Estáva- mos é claro certos, o leite derramado sobre o qual chorávamos logo se espalhou para a Europa e le- vou à bancarrota os governos europeus mais vulneráveis etc. Não é esse o ponto. Mas sim a lem- brança que não se apaga, nem deve, de que após três anos de uma guerra do fim do mundo, à qual ninguém conseguia mais pôr um fim, os bolchevi- ques disseram: vamos acabar com a guerra, expro- priar a terra e distribuí-la aos camponeses. Fico um pouco encabulado tendo que lembrar essas coisas.

O que o senhor espera do novo mandato de Dilma? Há esperança para um governo mais à esquerda?

Depende do fuso histórico da pergunta. No antigo, não espero nada, ou melhor, nada de novo. Nem a reviravolta pós-eleitoral tem novidade. A Presidente reeleita fez o que até as pedras de Brasília sabiam que faria, menos o seu eleitorado, que mesmo assim não deixaria de votar, tal o ambiente de luta mortal entre torcidas do mesmo time. Até o jogo duplo ensaiado pelas esquerdas, reunidas em frente única sob pretexto de combater a avalanche coxinha, é requentado. O teatro de sempre, o establishment político de turno se di- vide em dois, uma metade vai para a rua e pressiona a outra metade palaciana a ceder alguns anéis, a qual reage na mesma moeda de troca, até que o equilíbrio se desfaça e o jogo recomece. Foi assim com Getúlio e seus dois partidos, o desfecho foi trágico, mas ganhou tempo para o mesmo jogo ainda ser jogado por Jango, com o desenlace que se sabe. Uma terceira encenação, se ocorrer, sairá de cartaz em plena temporada. Se lhe desse uma resposta no fuso de agora, começaria a me repetir lembrando que esta não é a boa expectativa, e me voltaria a repetir dizendo que, sendo o tempo político de horizonte zero, certamente haverá carta nova no baralho, mas o baralho será o mesmo, gerencial e penal, muita lei e ordem com ’n’ programas “criativos” disso e daquilo se multiplicando como fogo de artifício enquanto a única demanda a realmente ser atendi- da será a de mais polícia.

Falamos hoje em “antipetismo”, um esforço pela desconstrução do partido que traz aspectos de intolerância. Como o senhor vê essas manifestações e que lição tirar?

O antipetismo nasceu com o PT e só arrefeceu sob a anestesia da trégua social atribuída ao carisma pop (Tales Ab’ Saber) do seu líder. O pre- conceito é de nascença, e embora seja obviamente de classe, nele estão unidos o assim chamado povão e a classe média, já os endinheirados são pragmáticos e não ligam para ideologia, desde que o governo saia barato, como foi o caso até agora. Quanto aos aspectos preocupantes da desconstrução do PT, o mais saliente deles é que a tal desconstrução é principalmente obra dele mesmo, algo inédito na folha corrida filosófica dessa noção abstrusa, que até hoje não sei como foi parar no jargão marqueteiro. Dito isso, que o antipetismo não é coisa nova, passemos ao capítulo aparentemente novo, a marcha triunfal da intolerância, que aliás não é uma exclusividade nacional. Mas por que o espanto? É verdade que não estávamos mais acostumados a apanhar em manifestações públicas.

Na velha política brasileira, pelo contrário, a regra era comício com muita pancadaria e não raro, tiro. Nossa transição pacificadora, além do mais, ao aprisionar a política na gaiola dourada do ordenamento jurídico levou o autoengano até o ponto de sugerir a miragem de que numa sociedade afinal pacificada até mesmo o antagonismo entre as classes expressaria o espírito mesmo das leis. E no entanto, não se multiplicaram por geração espontânea desde então os tais Núcleos de Estudos da Violência, convertendo pesquisadores de talento em zelosos operários da lei e da ordem.

Portanto devagar com o andor da intolerância, há muita bala perdida no pedaço. Ela é um sintoma por assim dizer multilateral, não tem lado certo. Na República Velha, e nem tão velha assim, costumava-se dizer que governar é abrir estradas, e desde o Estado Novo, mandar prender. A Ditadura fundiu estas duas artes de governar em escala industrial, juntou megaprojetos com suplício, morte e desaparecimento. Pariu uma sociedade punitiva que só por preguiça mental e política botamos na conta sem fundo da escravidão. A esquerda hoje, seja lá o que isso queira dizer, costuma se esquecer de que em sua longa marcha cívica iniciada no apagar das luzes da Ditadura, é verdade que sem se dar muita conta, principiou também a surfar na nova onda punitiva e disciplinadora da virada gerencial capitalista e que não se restringe apenas à dimensão penal, como no encarceramento em massa dos pobres e demais “desprivilegiados”, estendendo-se até os confins das menores células de sofrimento do mundo do trabalho. Afinal a esquerda preparava-se para apresentar-se como alternativa de governo e, portanto era conveniente deixar para trás seu passado abolicionista penal, entre outras tradições libertárias do socialismo obviamente antigo.

O fato histórico inédito é que desde então consolidou-se entre nós uma esquerda punitiva, com Maria Lucia Karam batizou o monstrengo. É só rebaixar o horizonte, e olhe que estávamos deixando uma ditadura para trás, para que o demônio punitivista salte da garrafa, invadindo qualquer sorte de plataforma de luta ao exigir punição exemplar para toda sorte de violação, ou desvio, na visão de seus pares antagônicos da nova direita. Homofobia, racismo, sexismo? Obviamente na forma da lei, mas punição sem choro nem vela, quem discordaria? Num ambiente de consenso em torno dos direitos humanos, ninguém. Antes de procurar saber se este consenso estaria se desmanchando por conta exclusiva da intolerância de ultradireita e se esta- ríamos de volta aos tempos dos “direitos humanos só para humanos direitos”, dos inconforma- dos com a extensão da alforria branca dos presos políticos ao povo barbarizado das prisões, seria muito útil voltar a lembrar que a propagação do discurso dos direitos humanos, tanto nos círculos bem pensantes dos outrora formadores de opinião, como nos círculos responsáveis pela conformação da nova razão governamental em vigor no Brasil pós-ditadura, se deu por um claro viés punitivista.

Penso num estudo pioneiro de Helena Singer, complementar à identificação da esquerda punitiva por Maria Lucia Karam. Legislar e governar segundo o consenso dos direitos humanos também é mandar prender. “O senhor deveria sair algemado deste debate!” Não há quem discorde. O que se pede para sexistas, torturadores, corruptos, poluidores, motoristas negligentes? Cadeia, a mesma que a Constituição Cidadã reservou para os racistas. Assim como a alternativa à tirania do tráfico nas comunidades só pode ser outra coerção, a das UPPs, nossos ativistas espontaneamente traduziam a linguagem dos direitos gravemente violados em culpabilização, penalização e punição. Se confio na disciplina do castigo e na eficiência penal do poder punitivo, por que não confiariam no poder de transformação social da polícia, um trabalho social como outro qualquer? O renascimento cívico da esquerda culminou num consenso legalista em torno da política como moral e direito aplicados. Com que roupa se opor à fúria moralista da nova direita? Tudo se passa como se lamentassem o consenso perdido, justamente em torno do recurso à virtude curativa do castigo. Sendo esse o quadro histórico de fundo, o que significa, por exemplo, ser implacável na luta contra a homofobia? Poderia substituir o implacável por outro termo mais ameno, mas o espírito seria o mesmo. A saber, que a proteção de minorias estigmatizadas só estaria plenamente assegurada, para além dos discursos edificantes de tolerância e esclarecimento das trevas do preconceito, através de intervenções do sistema penal, que só poderá ser acionado obviamente mediante a criminalização das práticas e condutas odiosas. O poder punitivo é o que é, uma tremenda má- quina de confiscar conflitos e fabricar inimigos. A dissonância cognitiva não poderia ser maior.

A palavra de ordem do capitalismo hoje é punir os pobres, na expressão consagrada por LoïcWa- cquant. Não só prender e arrebentar os desviantes de sempre, antigos e novos, mas na outra ponta, castigar com a austeridade fiscal, entre outras disciplinas, os endividados, os imprevidentes, os populistas etc. Enquanto isso, correndo dos no- vos comandos de caça aos comunistas batemos nas portas da lei como uma vez o camponês que não sabia que era personagem de uma parábola de Kafka. Mal comparando: é o que dizem os ativistas sul-africanos a propósito da derrocada dos movimentos sociais no pós-apartheid. Trocamos a ação combativa direta na construção do poder popular, dizem eles, pela rotina da apelação aos tribunais às portas dos quais se apresentam indivíduos estropiados em seu sofrimento individualizado clamando pelos direitos prometidos pela constituição: invariavelmente perdem. Aqui também será preciso periodizar.

Como lembrei, a democracia das vítimas e seus violadores, consensualmente organizada em torno dos direitos humanos, era uma visão específica de quadros virtualmente dirigentes, além do mais numa conjuntura em que a hegemonia intelectual e moral estava com a coalizão liberal-progressista que conduzira a transição. Quando essa visão se estabilizou e rotinizou na forma de secretarias de Estado e convenções internacionais, além do mais tutelada por operadores burocratizados do direito, sobretudo em sua variante penal, como acabamos de ver, uma atmosfera benigna de fim de linha pareceu impregnar todos os agentes concernidos, tanto faz se eleitoralmente à direita ou à esquerda.

Contra o pano de fundo incontroverso de que a racionalidade econômica capitalista vencera, destacava-se o Estado Democrático de Direito como horizonte insuperável de nosso tempo. Convergindo todos para o cen- tro, para falar à moda antiga, os extremos estariam mortos e enterrados. Até que, para espanto geral, a ultradi- reita renasceu das cinzas, primeiro nos Estados Unidos, depois na Europa, com toda força, livre para odiar. Seu desembarque no Brasil, em princípio pacificado pelo pacto conservador lulista, foi ainda mais surpreendente. A guerra voltou, mas no consenso básico não se toca, e, como vimos, não é só econômico, todo mundo quer criminalizar todo mundo. Mas é lá embaixo, na casa de máquinas da nova produtividade capitalista que o motor da crueldade social continua a funcionar a todo vapor. Não é só visão moral do mundo, embora o mérito do grande despertar para a luta final inegavelmente caiba à ultradireita que a esta altura já está engolindo toda a galáxia bem-pensante, aliás nem um pouco contrafeita.

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