Na Índia, comunidades pagam preço trágico pelo boom na construção

Internacional
Typography

Não há dados confiáveis sobre a retirada de areia do país

Por Michael Safi, em Jatpura
Da Carta Capital

Não sabíamos que eles estavam armados”, diz Santosh Yadav. Meses depois, Yadav ainda revê mentalmente a manhã de 19 de maio.

A decisão que ele, o tio e os primos tomaram de ir até a margem do rio e confrontar os homens que retiravam areia perto de sua aldeia. De não correr quando os mineiros foram até seus veículos e voltaram armados.

“Nós lhes dissemos para parar de retirar areia”, diz ele, de pé junto ao mesmo rio nos arredores de Jatpura, sua aldeia no estado de Jharkhand, no leste da Índia. “Eles disseram: ‘Quem são vocês para nos impedir? Se quisermos tirar areia, vamos tirar’. Então levantaram as armas e dispararam.”

Seu primo, Niranjan Yadav, morreu primeiro, conta ele. Depois seu tio, Uday, que se atirou sobre o corpo do filho. Então os mineiros voltaram as armas para Vimlesh, o outro filho. Relatórios legais mostram que os três foram mortos com tiros no peito a curta distância.

“Eles também atiraram em mim”, conta Yadav. “Para me salvar, saltei para trás e me escondi atrás de um caminhão, depois em um buraco atrás de um arbusto.”

Os três mortos foram vítimas de uma crise ambiental improvável. Virtualmente, todas as facetas da construção moderna dependem de areia. Aquecida, ela se torna vidro. Misturada com pedriscos, em asfalto. Com cimento, em concreto. Com a Ásia em meio ao maior surto de obras da história, cresce a consciência de que os suprimentos mundiais estão encolhendo.

A China usou mais cimento entre 2011 e 2013 do que os Estados Unidos em todo o século XX. Na Índia, segundo estimativas, a quantidade de areia usada na construção triplicou desde 2000.

A demanda deverá continuar subindo: o país pretende construir pelo menos 60 milhões de novas casas até 2024. “A demanda por areia hoje supera a de qualquer outra matéria-prima”, diz Sumaira Abdulali, da Fundação Awaaz, grupo ativista que faz campanha contra a extração ilegal de areia.

Conforme o suprimento de areia perto de grandes cidades como Délhi e Mumbai foi esgotado, as empreiteiras vão a regiões mais distantes para obtê-la, entrando em conflito com comunidades menores.

Escassez de água no subsolo, inundações e esgotamento de peixes e outros animais costumam ocorrer depois da retirada insustentável de areia, o que, segundo ativistas, também pode enfraquecer pontes e barragens.

Não há dados confiáveis sobre a quantidade de areia retirada na Índia, diz Abdulali. Também não se conhece o número exato das centenas de conflitos que surgem em pequenas comunidades do país entre mineradores e moradores locais. “Mas sabemos que a violência é generalizada.”

PUBLICIDADE

Tres-integrantes-familia-assassinados

Três integrantes da família de Yadav foram assassinados (Foto: Shaikh Azizur Rahman)

Os mineradores de areia chegaram no início de 2017, usando escavadeiras e aspiradores industriais que sugavam enormes quantidades de areia dos leitos dos rios. Vigiando-os havia um homem que os aldeões chamam de lathait, palavra indiana para descrever alguém hábil no uso de um porrete.

Niranjan Yadav liderou a oposição ao projeto. A mineração estava se aproximando demais de um lugar na margem do rio onde os moradores hindus tradicionalmente queimavam os mortos.

A dragagem também tornava o rio perigoso. Buracos começaram a aparecer abaixo da superfície, às vezes com 6 metros de profundidade. Em abril, um menino de 12 anos estava brincando na água quando escorregou numa fenda e se afogou.

O ressentimento crescia a cada pedaço de barranco arrancado. A pressão da extração de recursos não havia apenas transformado a população de Jatpura em vítimas. Alguns acreditam que também a transformou em assassinos.

Satinder Singh era gerente de uma aldeia próxima que supervisionava a mineração de areia em Jatpura e outros lugares. Depois que os Yadav foram mortos e os supostos atiradores fugiram, ele continuou perto do rio, para “manter vigilância”, segundo Neha Arora, a vice-comissária de Garwha.

As autoridades o encontraram espancado até a morte e a casa que ele alugava em Jatpura, arrasada. A polícia acredita que foi atacado por uma turba, “mas é difícil indicar quem participou”.

O tiroteio em Jatpura provocou protestos na cidade de Garwha e foi citado na assembleia estadual de Jharkhand. Desde então, o Estado emendou suas políticas de mineração. Extrair areia agora só é permitido em grandes rios, que podem ser explorados de modo mais sustentável. O rio de Jatpura, classificado como de médio porte, está fora do limite.

Arora diz não saber ao certo por que o uso de máquinas pesadas continuou em Jatpura durante meses sem que as autoridades fossem alertadas. Em outros casos, segundo ela, os chefes das aldeias, ou mukhias, fizeram acordos com as mineradoras para não delatar suas operações, em troca de parte dos lucros. Além da degradação ambiental, o aumento do preço incentiva a corrupção e provoca conflitos nas aldeias.

Os incêndios que atingiram as escavadeiras e os caminhões na manhã dos assassinatos em maio não foram os últimos vistos nas margens do rio naquele dia.

Depois da meia-noite, mais de 500 homens se reuniram no crematório, a pouca distância do local onde os Yadav foram mortos. Eles olharam em silêncio enquanto os três corpos foram colocados sobre uma fogueira.

Queimaram até de madrugada, quando as cinzas foram levadas pelo vento e se misturaram à areia na margem do rio.

Colaborou Xeque Azizur Rahman
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Artigos Relacionados

Secretário de Estado dos EUA sugere golpe militar na Venezuela Secretário de Estado dos EUA sugere golpe militar na Venezuela
AMÉRICA DO SUL  Já no ano passado, em meio à convocação da Assembleia Nacional...
Turquia inicia operação militar terrestre e aérea contra curdos na Síria Turquia inicia operação militar terrestre e aérea contra curdos na Síria
ORIENTE MÉDIO No início deste sábado, presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, declarou...
Apple pagará US$ 38 bilhões para repatriar capital aos EUA Apple pagará US$ 38 bilhões para repatriar capital aos EUA
EUA Pagamento é para repatriamento de dinheiro mantido no exterior; gigante da informática...

Leia mais

Correio Caros Amigos

 
powered by moosend
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade