
Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) divulga um panorama alarmante sobre a violência de gênero na capital fluminense. Em 2025, a cada 36 minutos, uma mulher foi atendida em uma unidade da rede municipal de saúde vítima de algum tipo de violência. Os dados fazem parte do novo painel com números da violência na cidade disponível no portal EpiRio, desenvolvido pelo Centro de Inteligência Epidemiológica (CIE) a partir de registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). O indicador reforça o papel estratégico das unidades de saúde não apenas no cuidado clínico, mas como portas de entrada fundamentais para a rede de proteção e acolhimento.
O levantamento leva em conta os atendimentos por violência interpessoal a mulheres residentes do município em toda a rede pública de saúde. Desde 2011, a notificação dos casos de violência interpessoal ou autoprovocada que chegam às unidades de saúde é obrigatória; a ficha inclui informações como tipo de violência, perfil do provável agressor e cor/raça da vítima. Na rede municipal do Rio, o registro de um episódio de violência aciona uma cadeia de cuidados para o acolhimento da mulher, desde o atendimento de urgência e emergência ao acompanhamento contínuo e especializado pelas equipes de saúde da família.
Violência crescente
Os números indicam que a violência de gênero vem crescendo no município, com 17.638 atendimentos registrados no ano passado contra 15.387 em 2024. Além disso, 40,8% das mulheres assistidas pela rede relatam que a situação de agressão já havia ocorrido outras vezes anteriormente. Ainda segundo o levantamento, 72% das vítimas se identificam como negras (pretas ou pardas).
– Esses dados são fundamentais para identificar que a violência contra a mulher não é um evento isolado, mas um problema de saúde pública. Nosso objetivo é transformar cada notificação em uma oportunidade de cuidado e interrupção desse ciclo, garantindo que nossas equipes de saúde da família possam atuar de forma preventiva e acolhedora em cada território -, diz a superintendente de Vigilância em Saúde da SMS, Gislani Mateus.
A letalidade desses crimes também apresenta um crescimento preocupante. Os registros de mortes violentas de mulheres de 10 a 59 anos residentes do município saltaram de 103 em 2023 para 124 em 2024.
A cada dez casos, em oito o provável agressor é um homem. Quase metade dessas agressões é cometida por maridos, namorados ou ex-parceiros. Outros 29,5% dos potenciais autores são pessoas da própria família.
Residência é o ambiente mais comum
Seis em cada dez vítimas foram agredidas em ambiente domiciliar, mostrando que, para a maioria das cariocas, o perigo mora em casa.
Os dados indicam ainda que a violência não escolhe idade: todas as faixas etárias apresentaram uma parcela importante de registros, com destaque para as de 20 a 29 anos (25%); de 30 a 39 (21%); e de 10 a 19 (18%).
Além disso, a violência física continua sendo a forma mais frequente de agressão que chega às unidades de saúde (74,3%). No entanto, os registros também destacam a gravidade da violência sexual, que representa 18,3% das notificações, e da violência psicológica ou moral, presente em 16,3% dos atendimentos.
Rede de cuidado e acolhimento
Todas as unidades municipais de saúde estão de portas abertas e preparadas para receber mulheres vítimas de violência. Nos episódios de violência sexual, as redes de Atenção Primária (clínicas da família e centros municipais de saúde) e de urgência e emergência (hospitais, UPAs e CERs) oferecem acolhimento imediato. São realizados testes rápidos para infecções sexualmente transmissíveis (IST), contracepção de emergência e a Profilaxia Pós-Exposição (PEP) em até 72 horas, entre outros cuidados indicados conforme avaliação clínica individualizada.
A depender das características de cada caso, o cuidado pode ser compartilhado com as equipes multidisciplinares (eMulti), compostas por assistente social, psicólogo, terapeuta ocupacional, entre outros; com os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS); e os Centros de Atenção Multidisciplinar Integrado (CAMI), unidades especializadas no atendimento às pessoas vítimas de violência e seus familiares.
Para além do atendimento clínico, as unidades de saúde da rede municipal também oferecem suporte para a garantia de direitos. As pacientes são orientadas sobre a possibilidade de registro da ocorrência em delegacia policial, realização de exame de corpo de delito, solicitação de medidas protetivas e investigação. No entanto, cabe lembrar que a decisão final sobre a busca por esses serviços é sempre da própria mulher.
Mapa da violência
Na divisão por territórios, as Zonas Norte e Oeste concentram o maior volume de notificações no município. A região de Madureira e adjacências (AP 3.3) lidera o número de registros, com 2.145 atendimentos, seguida de perto por Bangu e Realengo (AP 5.1), com 2.050, e por Santa Cruz (AP 5.3), com 1.950 casos. Outras áreas com alta incidência incluem a região da Ilha do Governador e Leopoldina (AP 3.1), com 1.882 notificações, e Campo Grande (AP 5.2), que somou 1.804 registros de violência contra a mulher.
A SMS também mantém profissionais nas Salas Lilás das unidades do Instituto Médico Legal (IML) do Centro e de Campo Grande. Nesses espaços, a vítima recebe escuta qualificada durante a avaliação pericial e sai com encaminhamento garantido para os serviços de saúde e para outros dispositivos da rede para a garantia de direitos.
– A violência contra a mulher é um problema de grande magnitude e está diretamente relacionada à sociedade patriarcal, ao machismo estrutural e às relações de poder historicamente desiguais entre homens e mulheres. Essas violências não ocorrem como evento isolado, mas articuladas aos papéis atribuídos ao gênero, incluindo agressões físicas, psicológicas e sexuais. Falar sobre violência sexual é romper o silêncio e reafirmar que a responsabilidade nunca é da vítima. Na Saúde, nosso compromisso é garantir acolhimento imediato, sigiloso e humanizado, com escuta qualificada, atendimento integral e orientação sobre os direitos das mulheres -, conclui a coordenadora de Políticas e Ações Intersetoriais da SMS, Gleycimara Cardoso.
Caso necessite de atendimento médico em razão de um episódio de violência, seja qual for a natureza da agressão (física, sexual, psicológica ou outra), a mulher deve procurar a unidade de saúde mais próxima, onde terá a garantia de acolhimento e abordagem sigilosa. As unidades de urgência e emergência (UPAs, CERs e hospitais) funcionam 24h. Para saber o horário de funcionamento das clínicas da família e centros municipais de saúde, basta acessar o portal Onde Ser Atendido: https://prefeitura.rio/ondeseratendido.
O painel de dados sobre violência está disponível no portal EpiRio: https://epirio.svs.rio.br/painel/violencia-interpessoal-e-autoprovocada/.


